A melhor terapia
Martha Medeiros
Como tudo na vida é meio verdade e meio mentira, eu faço terapia, sim, mas não na frente de um analista, de um computador. Faço na frente da pia
Como é que é? Você nunca fez análise??
"Pra valer, não", respondo timidamente, como se fosse uma mácula irreparável no meu currículo, como se eu fosse a pessoa mais desinteressante do universo. "Minha terapia é escrever" - nada como um clichê para nos socorrer nestas horas.
Como tudo na vida, é meio verdade e meio mentira, porque eu faço terapia, sim, mas não na frente de um analista e nem na frente do computador. Faço na frente da pia.
Não tenho o menor talento para tarefas domésticas. Se quiser acabar com o meu dia é só pedir para eu arrumar uma cama. Não cozinho, não limpo vidros, não tiro o pó e, lógico, trato minha empregada melhor do que trato minha mãe. Mas de vez em quando eu amarro um avental na cintura e assumo a pia com gosto: não existe terapia melhor do que lavar louça.
De vez em quando, quando?
Ora, toda vez que estou com a cabeça emaranhada de pensamentos inúteis, que estou encardida mentalmente, que estou com dificuldade de clarear as ideias. Nestas horas, pego esponja e detergente e começo a lavar todos os copos e pratos empilhados na bancada da cozinha, e de repente é como se eu desaguasse ralo abaixo todas as minhas dúvidas e inquietações. Lavo louça e vou lavando junto os neurônios, as ideias vão ficando mais límpidas, transparentes, dou fim à gordura que se acumula na minha massa cinzenta e, ao término do serviço, a cabecinha fica pronta pra ser usada de novo, tinindo como um cristal.
É bem verdade que as mãos ficam ressecadas, mas um bom hidratante sai mais barato que uma consulta no psiquiatra.
Brincadeira, nada substitui um profissional. Para quem está com algum conflito paralisante ou em depressão profunda, de nada vai adiantar lavar a panela mais encrostada. Mas para quem quer apenas um tempo para poder pensar quieta sem ouvir o barulho da tevê e sem ter ninguém em volta fazendo solicitações, a pia é o divã perfeito. Você já estará ocupada o suficiente, todos em casa serão compreensivos e lhe deixarão em paz. E ainda agradecerão a mãe e mulher prestativa que você é.
Eu disse que não fazia análise. Mas nunca disse que não era maluca.
Domingo, 23 de janeiro de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.